Esta coisa de escrever um texto introdutório para uma exposição, a do Bettencourt, a pedido do Nuno, afinal o próprio, não tem sido um processo fácil. Para ele e para mim.

Sou um leigo em matéria de artes mas, confesso, sou um universalista.

Isto é, entendo que tudo o que me rodeia é de todos, logo é um pouco de mim, mas não meu. Claro.

Isto é, tenho opiniões, tenho sentimentos, tenho palavras, tenho o que afinal qualquer um de nós tem quando se “expõe” diante da obra de um artista: qualquer coisa para dizer!

Isto para dizer que quase estive a negar o convite do Nuno por isso, quase a negar a possibilidade de usufruir de um direito que o artista me ofereceu de o fazer por escrito.

Concluí, por outro lado, que o Nuno ao ser convidado a realizar esta Exposição na Galeria do Pelourinho, teria muito mais razões para estar preocupado com essa responsabilidade, do que eu por um simples texto que, como leigo, só pode ser mesmo um simples texto.

Mas preocupado por quê?

Pelo mote da exposição, pelas datas propostas e pelo que nós sabemos, não ser uma temática fácil perante as pessoas que estarão a ler este texto, logo a visitar esta exposição. Ou até não, sei lá eu!

O Nuno Bettencourt não é católico embora educado no meio da religião, aliás como grande parte de nós, através dos nossos pais e muitas vezes, principalmente, das nossas mães, sempre as mais crentes. Quero dizer com isto que não sendo de uma religião é de todas elas, porque respeitador.

É um renovador, liberal, um “artista de rua” porque ele se sente bem na “street art” mas não só, mas por que, verdade seja dita, o Bettencourt está bem em qualquer lugar da arte ou na arte em qualquer lugar.

É uma pessoa como qualquer um de nós e um artista como poucos, simplista! Aquilo que a arte merece!

Nós, aqui deste lado, é que complicamos!

Para não me alargar muito +, quero só fazer referência a duas das peças que podem aqui contemplar (o quanto eu aprecio o termo da contemplação):

O carrinho de mão que “acarta” as malas e que me faz sentir todo o peso da religiosidade que transportavam as nossas mães e principalmente as nossas avós (quando olhamos aquelas antigas fotografias já arrebatadas pelo tempo), décadas atrás, nas suas faces, no seu comportamento, nas suas mãos e nos seus semblantes, na sua submissão. Para mim é esse o peso que transporta aquele carro e aquelas malas. A religião um peso? Não deve ser!

Por outro lado, a Cruz quase, quase tridimensional que nos sugere transparência. A desejável transparência da religião e da alma, ou até a transparência que a religião deveria exercer sobre nós, todos nós seres humanos ao cimo da terra.

A cruz que revela o céu através dela, aquilo a que todos aspiramos e afinal temos as escadas que até lá nos podem levar.

Lembram-se dos Led Zeppelin? “Stairway to Heaven”? Acho que vou ouvi-lo de seguida. Boa, Nuno!

Quanto ao mural, aquele “proibido afixar…” deixa-me atónito. Já imaginaram o que seria morrer, chegar às Portas do Céu, sabermos que aquele é o nosso lugar e o S. Pedro, por exemplo, vir-nos dizer que não nos quer ali!? Meu Deus, será possível?

Para nós, que estamos do lado oposto do artista, às vezes não importa o significado que este incute nas obras. Tão importante quanto isso é a possibilidade que o artista nos dá de criar, nós próprios, através das suas obras. Permitirmo-nos à imaginação, talvez mesmo à verdade subjacente aos objectos, às ideias e ao nosso próprio imaginário. É como ler um livro e imaginarmo-nos o protagonista. Porque gostamos daquilo.

Teria sido um disparate ter dito não ao Nuno Bettencourt.

João Bernardes

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

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